segunda-feira, 18 de junho de 2012

Por traz de um sorriso bonito, existe uma vida sem cor.


Em cada fim de dia, entro em meu carro, dou uma respirada profunda como quem não precisa mais sorrir forçadamente para disfarçar a tristeza interna, ligo o carro e atravesso a cidade de pedra.
Há cada semáforo, encosto minha cabeça no vidro como quem sente preguiça de continuar com ela erguida e, observo o mundo lá fora, com as pessoas andando apressadas em cima das faixas de pedestres, uma sem olhar para a outra. Elas seguem caminhos diferentes, umas voltando para suas casas após um dia cansativo cheio de trabalho, outras com pensamentos em pessoas e há aqueles que aceleram o passo com medo de serem assaltadas por algum indivíduo perverso. 
Observo também as pessoas dos carros, umas sorrindo sozinhas, outras cantando e há também aqueles que choram. Eu sinto o gosto salgado de minhas lágrimas, que atravessaram minha boca entreaberta e encostaram em minha saliva, uma lágrima encorpada, de vazio, frio e solidão. É como se eu não me sentisse em casa, como se esse lugar não me pertencesse, como se as pessoas não fizessem sentido para mim. Como se a vida não fizesse sentido para mim.
Eu abro quatro dedos do vidro e posso sentir o vento frio encostar no caminho que as lágrimas percorreram em meu rosto, vejo o carro ao lado andar e olho para frente e com o sinal aberto, eu caminho em direção do meu destino. Eu poderia entrar em qualquer rua que me faria chegar em algum lugar qualquer, assim como meu destino, vazio e completamente sem sentido. 
Meu corpo me pede um cigarro e eu obedeço, colocando-o em meus lábios molhados de lágrimas salgadas, ao levar meu isqueiro próximo de meu rosto, eu o sinto o fogo amenizando o frio do vento e por alguns instantes, eu sinto um acolhimento. Em cada trago, eu sinto a fumaça grossa passando por minha garganta, chegando ao pulmão e saindo por minha boca com um vazio, como se eu estivesse sugando todo o seu gosto e eliminando o desnecessário. 
Chegando em casa, passo meus olhos para minha vaga e a vejo vaga, dou um leve sorriso "ninguém a roubou de mim hoje" encontro com o carro devagarinho, desligo-o e olho para o som e levo minha mão em sua direção, ouço algo dentro de mim "Não desligue, escute a última música, ninguém te espera lá em cima" e eu obedeço, encostando minha testa sob o volante, com os olhos voltados para meus joelhos que se movimentam descoordenados em algumas batidas de bateria, fecho os olhos para não observar minha falta de sabedoria com a tal música e balanço minha cabeça conforme o ritmo, quando meu movimento não segue o mesmo da música, eu paro e começo novamente, na segunda tentativa sem sucesso "Pare, você não conhece a canção" eu obedeço, agradeço internamente por ela ter acabado e desligo o som ao ouvir o locutor se pronunciar. 
Ao chegar em casa, eu me olho no espelho e sorrio sem mostrar os dentes "Por traz de um sorriso bonito, existe uma vida sem cor". 
Fernanda Evangelista

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