Em cada fim de dia, entro em meu carro, dou uma respirada profunda como quem não precisa mais sorrir forçadamente para disfarçar a tristeza interna, ligo o carro e atravesso a cidade de pedra.
Há cada semáforo, encosto minha cabeça no vidro como quem sente preguiça de continuar com ela erguida e, observo o mundo lá fora, com as pessoas andando apressadas em cima das faixas de pedestres, uma sem olhar para a outra. Elas seguem caminhos diferentes, umas voltando para suas casas após um dia cansativo cheio de trabalho, outras com pensamentos em pessoas e há aqueles que aceleram o passo com medo de serem assaltadas por algum indivíduo perverso.
Observo também as pessoas dos carros, umas sorrindo sozinhas, outras cantando e há também aqueles que choram. Eu sinto o gosto salgado de minhas lágrimas, que atravessaram minha boca entreaberta e encostaram em minha saliva, uma lágrima encorpada, de vazio, frio e solidão. É como se eu não me sentisse em casa, como se esse lugar não me pertencesse, como se as pessoas não fizessem sentido para mim. Como se a vida não fizesse sentido para mim.
Eu abro quatro dedos do vidro e posso sentir o vento frio encostar no caminho que as lágrimas percorreram em meu rosto, vejo o carro ao lado andar e olho para frente e com o sinal aberto, eu caminho em direção do meu destino. Eu poderia entrar em qualquer rua que me faria chegar em algum lugar qualquer, assim como meu destino, vazio e completamente sem sentido.
Meu corpo me pede um cigarro e eu obedeço, colocando-o em meus lábios molhados de lágrimas salgadas, ao levar meu isqueiro próximo de meu rosto, eu o sinto o fogo amenizando o frio do vento e por alguns instantes, eu sinto um acolhimento. Em cada trago, eu sinto a fumaça grossa passando por minha garganta, chegando ao pulmão e saindo por minha boca com um vazio, como se eu estivesse sugando todo o seu gosto e eliminando o desnecessário.
Chegando em casa, passo meus olhos para minha vaga e a vejo vaga, dou um leve sorriso "ninguém a roubou de mim hoje" encontro com o carro devagarinho, desligo-o e olho para o som e levo minha mão em sua direção, ouço algo dentro de mim "Não desligue, escute a última música, ninguém te espera lá em cima" e eu obedeço, encostando minha testa sob o volante, com os olhos voltados para meus joelhos que se movimentam descoordenados em algumas batidas de bateria, fecho os olhos para não observar minha falta de sabedoria com a tal música e balanço minha cabeça conforme o ritmo, quando meu movimento não segue o mesmo da música, eu paro e começo novamente, na segunda tentativa sem sucesso "Pare, você não conhece a canção" eu obedeço, agradeço internamente por ela ter acabado e desligo o som ao ouvir o locutor se pronunciar.
Ao chegar em casa, eu me olho no espelho e sorrio sem mostrar os dentes "Por traz de um sorriso bonito, existe uma vida sem cor".
Fernanda Evangelista
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